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O PL na engrenagem: como o partido de Bolsonaro se entrelaça na maior fraude do INSS

  • 17 de mar.
  • 4 min de leitura

A Operação Indébito, deflagrada nesta terça-feira pela Polícia Federal em parceria com a Controladoria-Geral da União, escancarou um fato que a CPI do INSS tenta, há meses, obscurecer: os alvos concretos da investigação sobre o esquema bilionário de descontos indevidos em aposentadorias são, majoritariamente, parlamentares da oposição ou sem vínculo com o governo Lula.


Enquanto o discurso nos microfones da CPMI tenta jogar a culpa no Planalto, os mandados judiciais cumpridos nesta manhã contam uma história diferente. A deputada federal Gorete Pereira, que passou a usar tornozeleira eletrônica por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, carrega uma trajetória política que a coloca no campo da oposição: até janeiro deste ano, ela estava filiada ao PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro.


O PL no centro da investigação


A ligação de Gorete com o PL não é um detalhe biográfico menor. Segundo a Polícia Federal, a parlamentar é suspeita de comprar um apartamento de R$ 4 milhões e um carro de R$ 400 mil com recursos desviados do INSS por meio de empresas de fachada, além de controlar associações de aposentados que serviam como instrumentos para as práticas dos crimes. A relação da deputada com o esquema, portanto, foi forjada enquanto ela ainda vestia a camisa da legenda bolsonarista.


Mas o envolvimento do PL na fraude do INSS vai muito além de uma ex-filiada. O partido que hoje ocupa o papel de principal oposição ao governo tem seus próprios quadros na mira das investigações.


O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do partido à Presidência, tornou-se alvo de pedidos de quebra de sigilo bancário e fiscal na CPMI do INSS, após a descoberta de que seu contato telefônico estava na agenda do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado por ligações com o esquema. A corretora de seguros All In One, da qual Flávio é sócio, também entrou no radar dos investigadores sob suspeita de intermediar pagamentos ligados às fraudes.


O deputado Nikolas Ferreira, principal nome jovem do partido, também apareceu na lista de contatos de Vorcaro, conforme documentos entregues à CPMI. Embora negue qualquer relação com o ex-banqueiro, o parlamentar admitiu ter viajado em um avião ligado a ele, alimentando suspeitas que a oposição prefere não comentar nos microfones.


Em dezembro de 2025, os deputados Sóstenes Cavalcante, líder do partido na Câmara, e Carlos Jordy foram alvos de mandados de busca e apreensão na Operação Galho Fraco, que investiga desvios de recursos de cota parlamentar. Na residência funcional de Sóstenes, agentes encontraram R$ 430 mil em espécie.


A Procuradoria-Geral da República defendeu, recentemente, a condenação de dois deputados federais e um suplente do PL — Josimar Maranhãozinho, Pastor Gil e Bosco Costa — pelos crimes de corrupção passiva e organização criminosa em um esquema de desvio de emendas parlamentares que causou prejuízos ao Sistema Único de Saúde.


O MDB na mira


Além do PL, o MDB também figura entre os partidos atingidos pela Operação Indébito. Gorete Pereira, embora tenha passado pelo PL, hoje integra as fileiras do MDB — legenda que, apesar de compor a base governista em algumas esferas, tem histórico de atuação independente e abriga parlamentares de diversos espectros políticos.


A tornozeleira eletrônica na deputada cearense é a prova mais concreta de que as investigações não estão mirando o governo, mas sim uma rede criminosa que se valeu de associações de fachada e operadores financeiros para desviar recursos de aposentados, independentemente de qual partido ocupava o Planalto.


O discurso da "blindagem" e a realidade dos fatos


Apesar desse cenário, a oposição, capitaneada pelo PL, tem utilizado a CPMI do INSS para tentar inverter a narrativa. O líder do partido na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante, denunciou o que chama de "blindagem" do governo na comissão, citando nominalmente 17 parlamentares, a maioria do PT, que teriam votado contra a convocação de investigados para depor.


Em discurso, Sóstenes afirmou que o aposentado e pensionista do Brasil muitas vezes não tem acesso ao que acontece no Congresso, e que muitos que foram roubados nem sabem ler. Por isso, disse ele, leria o nome dos que estão blindando e impedindo que pessoas que roubaram sejam chamadas a depor.


O grande trunfo da oposição foi a aprovação da quebra de sigilo bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula. O nome do empresário apareceu em conversas como alguém que teria recebido R$ 300 mil do esquema, alegação que ainda não foi comprovada e que contrasta com as evidências concretas que pesam sobre os parlamentares do PL e do MDB.


A estratégia da oposição é clara: transformar a CPMI em palanque eleitoral e tentar associar o governo a um esquema cujos principais alvos, até agora, estão no campo adversário. O deputado Ubiratan Sanderson chegou a protocolar representação na Procuradoria-Geral da República solicitando a prisão preventiva de Lulinha. A senadora Damares Alves e o senador Eduardo Girão também têm atuado na comissão cobrando respostas do governo.


O xadrez político de 2026


A avaliação nos bastidores de Brasília é que acabou a CPI, começou a eleição. A CPMI do INSS, que até pouco tempo era vista como uma investigação fadada ao esvaziamento, ganhou fôlego explosivo e se tornou o epicentro da antecipação da disputa eleitoral de 2026.


O PL, como principal partido de oposição, tenta capitalizar politicamente o desgaste do governo, mas enfrenta o risco de que as investigações atinjam em cheio suas próprias fileiras. A tornozeleira no tornozelo de Gorete Pereira, ex-filiada do PL, é um lembrete incômodo de que o esquema de desvios bilionários do INSS não escolhe lado partidário, mas, até agora, tem escolhido alvos muito específicos.


Enquanto isso, o governo Lula, por meio da CGU, colabora ativamente com as investigações, como comprova a atuação conjunta com a Polícia Federal na Operação Indébito. O órgão mantém ainda a plataforma Fala.BR para o recebimento de denúncias sobre irregularidades, inclusive sobre esta operação.


A fase Indébito do INSS, portanto, não é sobre o governo. É sobre como o partido que se apresenta como paladino da moralidade pública precisa explicar as conexões de seus quadros com a maior fraude já registrada contra os aposentados brasileiros. E a tornozeleira no tornozelo de uma ex-filiada do PL é a prova mais concreta de que, desta vez, a conta chegou para o lado que mais grita contra a corrupção.



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