Tarcísio morde ao se insubordinar a Bolsonaro e assopra ao pedir desculpas
- Herbert Santos de Sousa
- 15 de jan.
- 2 min de leitura

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), protagonizou nos últimos dias um movimento político que expôs as fissuras internas do bolsonarismo e reacendeu disputas silenciosas sobre a sucessão presidencial de 2026. Em uma sequência de declarações e recuos públicos, o governador primeiro insinuou que poderia disputar o Planalto, em gesto interpretado como insubordinação ao ex-presidente Jair Bolsonaro, e depois veio a público pedir desculpas, reafirmando fidelidade ao clã e apoio à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
O fato
A crise teve início após uma postagem nas redes sociais e falas à imprensa em que Tarcísio deixou margem para a interpretação de que poderia entrar na corrida presidencial. A sinalização foi suficiente para provocar reação imediata entre aliados bolsonaristas, que enxergaram no gesto uma tentativa de ocupar um espaço político tradicionalmente controlado por Jair Bolsonaro, mesmo diante da inelegibilidade do ex-presidente.
Morde
A leitura interna foi a de que Tarcísio “mordeu” o bolsonarismo ao sugerir protagonismo próprio e alimentar especulações sobre um projeto nacional. O incômodo se agravou porque o governador vinha sendo apontado por setores da direita como um nome viável eleitoralmente, capaz de dialogar com o eleitorado conservador e, ao mesmo tempo, com parcelas do centro político — algo visto com desconfiança pela ala mais ideológica do PL.
Assopra
Diante da repercussão negativa, Tarcísio tratou de recuar. Classificou a postagem como um “desabafo”, negou qualquer intenção concreta de disputar a Presidência e pediu desculpas pelo ruído causado. Em seguida, fez questão de reforçar publicamente seu apoio à pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro, gesto interpretado como um movimento de recomposição e submissão à hierarquia política imposta pelo ex-presidente.
A desconfiança
O recuo não apagou completamente o desgaste. Para parte do bolsonarismo, o episódio revelou ambiguidade e falta de clareza estratégica. Para aliados mais pragmáticos, mostrou os limites da autonomia de Tarcísio dentro de um campo político ainda fortemente centralizado na figura de Bolsonaro, mesmo fora do poder e sob restrições judiciais.
Prova de fidelidade
Ao insistir que permanecerá no governo paulista até o fim do mandato, Tarcísio tenta se reposicionar como gestor focado na administração e distante das disputas nacionais. Ainda assim, o episódio evidencia a dificuldade de conciliar ambições pessoais, expectativas eleitorais e a necessidade de demonstrar lealdade a um líder que segue sendo o principal fiador político da direita brasileira.
O dilema de Judas
O movimento de morde e assopra expõe um dilema central do bolsonarismo em 2026: a ausência de um nome incontestável para liderar o projeto presidencial e a resistência em permitir que aliados cresçam fora do controle direto do ex-presidente. Nesse tabuleiro, Tarcísio aprendeu que qualquer ensaio de voo próprio cobra reação imediata — e, quase sempre, um pedido público de desculpas.

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